...::Roxo, Lilás e Violeta:::..


A cor da tardinha quando chove. Ela olhava pelo vidro da janela . Apenas o abajur aceso, sozinha em casa. Música ligada, computador tocando.
Salto agulha, saia roxa na altura dos joelho, blusa branca com tons de lilás, ela esperava. A cor dos papas, ela que não era santa. Lembrava. Perfume de lavanda, cabelos curtos, unhas finas pintadas, ela esperava. Música no ápice emotivo.
Agora uma vela, chama em lusco-fusco, acende um aroma de malva pelo quarto.
Reclinada no encosto, morde uma ameixa ainda fresca; uma gota de polpa cai em seu colo descoberto pelo decote. Olha a taça de Merlot ao lado. Ali era o mundo. Uma aura sofisticada e pervertida que tudo envolvia, a solidão da própria companhia. O mistério de encontrar quem tão cedo veria trazia sensações, e uma luz néon parecia atravessar seu corpo. Pensamentos furta-cor, sua lembrança trazia anil ao cérebro.
Não seria cedo que aconteceria, havia tempo para mais uma fruta antes de retocar o batom. A uva impregnava-lhe os lábios. Ao som de Lily Allen. Faz um certo calor em contraste ao distante frio. Não sabiam o quanto faziam bem.
Pensava inebriada pelo tinto do vinho. Era uma mulher. Sabia que não chegaria, mas esperava ainda assim. Em todo caso, iria. Bombom de chocolate com licor e cereja. Certamente encontraria o desejo quando chegasse.


Lua Aaliyah

...::Lua Cheia Blues::...



Na meia noite desse fim de linha
É um canto escuro em uma noite fria
À sombra de tudo aquilo que
eu não quero lembrar
Há feridas tão profundas que
nem o tempo consegue alcançar

Uma dose a mais escondida no travesseiro
Um beijo na boca do ser ao avesso
Mais uma marca no espelho do banheiro
Um afago com um tapa pra matar essa charada

Se tudo o que se quer é em benefício do que se faz
Tudo o que desejo é o vazio que me traz
Se é o não querer que move meu mundo
Eu que um dia quis demais
Fiquei aqui
Sentada nesse chão sujo

Lua Aaliyah

...::::Paráfrase::::...

"João amava Teresa que amava Maria..."

É preciso agradar João
É preciso alegrar Maria
É preciso amar José
É preciso felicitar Ritinha
É preciso adorar Antônio
É preciso louvar Francisca
É preciso glorificar Martins
É preciso adotar Anita
É preciso concordar com todos
É preciso coordenar a vida
É preciso dar alegria ao mundo
É preciso acabar com a minha...

Lua Aaliyah

21 de Fevereiro

Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um
modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão
generosa, não.
Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me
calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis,
reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno
polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a
mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta querida, escuta. A
marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo
belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem.
As cenas mais belas do romance o autor não soube
comentar.
Não me deixa agora, fera.

Ana cristina César

Querido Diário (Tópicos para uma semana utópica)



Segunda-feira:
Criar a partir do feio
Enfeitar o feio
Até o feio seduzir o belo

Terça-feira:
Evitar mentiras meigas
Enfrentar taras obscuras
Amar de pau duro

Quarta-feira:
Magia acima de tudo
Drogas barbitúricos
I Ching
Seitas macabras
O irracional como aceitação do universo

Quinta-feira:
Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos
Como fazem os mudos

Sexta-feira:
Assunto de família:
Melhor fazer as malas
E procurar uma nova
(Só as mães são felizes)

Sábado:
Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Domingo:
Não pisar em falso
Nem nos formigueiros de domingo
Amar ensina a não ser só
Só fogos de São João no céu sem lua
Mas reparar e não pisar em falso
Nem nas moitas do metrô nos muros
E esquinas sacanas comendo a rua
Porque amar ensina a ser só
Lamente longe por favor
Chore sem fazer barulho

CAZUZA

...::No Lotação::...

Viu o ônibus parado na plataforma e saiu correndo. Tentou ainda a última poltrona vaga, mas a educação da outra garota não permitiu que ela sentasse. Ficou em pé, recostada na barra vertical metálica que fica na metade das conduções. A má educação de um moço sentado fez com que ele pedisse para segurar as coisas que ela levava. E la ia... Em pé... Vendo o caminho passar...
Pára. Abre a porta. Sobe gente. Um homem loiro, olhos muito azuis, pele muito vemelha de sol provavelmente, a indefectível bolsa carteiro preta a tira-colo...
- Bom dia a todos! Estou aqui para falar sobre a tentação das drogas e de como muita gente tem se perdido nesse caminho. Infelizmente eu mesmo já fui há três anos um desses viciados. Por causa das drogas eu perdi os meus amigos, perdi alguns parentes mas graças ao bom Deus estou hoje aqui, lutando pelo meu espaço...
Sabia esse discurso de cor. Todos diziam a mesma coisa, que tinham se salvado graças ao bom Deus - e existe algum mau Deus? - e que aquela era a forma que eles tinham de agradecer o que eles conseguiram na vida, blá, blá, blá...
- Essa canetinha semi automática na cor azul e essa outra caneta, vejam só, com a extremidade emborrachada, protetor de bolsos, também semi automática, que nas livrarias chega a custar dois reais ou dois e cinquenta, vocês vão estar levando aqui comigo por apenas um real. A caneta na tinta azul e a com extremidade emborrachada com protetor de bolsos com tinta na cor preta. Apenas um real, essa é sua contribuição...
Texto decorado... Entrecortado pelos "Deus te abençoe" e "Muito obrigado".
Tudo bem... Dá dois reais, espera o troco, guarda as canetas e o papel na bolsa... Ainda em pé. nunca tinha estados naquelas bandas da cidade. Muita coisa nova. Mas o discurso, esse era decorado.
Nova parada. Pessoas descem. Pega as coisas com o moço sentado e senta logo bem mais a frente, atrás da poltrona mais alta. Cadeira do corredor. Olha distraidamente para a janela, mas a menina ao lado parece não gostar. Ciúmes de uma janela? dane-se...Queria olhar e pronto.
Do nada uma sanfona ao fundo. Susto coletivo no coletivo.
Ao fim do ônibus um homem cego se levanta e começa a tocar. Não entendia muito de sanfonas, mas era nítido que aquela estava desafinada. Doía ouvir, mas, fazer o quê? Opção não lhe restava.
"...toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração..." E pouco depois parava de cantar. Recebia algum trocado. Agradecia com o "Deus te guie", "Deus te acompanhe". Silêncio.
...
Nova música. Novo susto.
"...quem é o fí de uma égua que dormiu com a minha amada..." A mulher ria alto. A outra explicava onde era o montese. Ele se aproximava da porta da frente. Estava chegando perto. Novos agradecimentos. Agora sem silêncio, outra música.
"...ele não pensa em querer-te, te faz sofrer e até chorar..." A seu lado ali estava, sem ritmo, tom, afinação ou qualquer coisa que o valha. Sentia fome e o clima fechado e quente lhe atrapalhava. não se sentia bem, a música ruim piorava tudo. O sanfoneiro não tinha um dos olhos...
Sentiu-se fora de tempo e espaço.
Ele desceu... Mais gente subiu... Calor... Enfim uma parte conhecida do trajeto. Estava perto de casa.
Perfume forte. Conversas altas e desencontradas. Calor, calor, calor. Estava só...
Levantou, desceria logo após a curva. O rapaz que segurou suas coisas também. Estava a sua frente. Olhou... Sorriu... Não agradeceu novamente e nem lembrava se tinha agradecido antes. Desceram... Cada um foi por um lado...
Enfim, casa...
É hora de fazer o próprio almoço e comer só...

Lua Aaliyah
A essência por trás do reflexo narcisista do espelho quer dizer expressamente o quê? Qual o significado dessa massa disforme aparentemente atraente formada de pele, pêlos, rugas, saliva, olhos e ar?
O que está vendo atrás de meus olhos, como se percebe através dos meus ouvidos, quem desfruta através de mínha língua? Ah, se eu soubesse te dizer...
Como cada um me percebe, quem cada qual de mim conhece, de que forma cada ser que me rodeia me percebe? E no fim de tudo isso, quem de verdade representa aquilo que eu supunha ser?
O espelho, o olhar, cada persona vista, o que eu acho de mim, qual é a máscara verdadeira???
Lua Aaliyah

Alento


Pequeno, pequenininho
Sindrome do coração partido
E tão quieto, quietinho
Que a dor foge, e fica o vazio...

Lua Aaliyah

.:::PAIXPILEPSIA:::.



A princípio a paralisia
Os músculos do corpo não obedecem
Aos comandos do cérebro
Enrijecem
Há o aumento da sudorese corpórea
Logo após vêm os tremores
O raciocínio fica ilógico
E todos parecem olhar você
Bambas, as pernas parecem em crise
E você cai
E treme
Qual a diferença entre os sintomas
De paixão
E de um ataque epilético?

Lua Aaliyah

Ok...Ok...De novo...Esse vem direto do Mundo Da Lua S/A (saudades dele!!!)... Não é novidade..Apenas ele voltou a ser discutido e decidi trazê-lo de volta pelo caminho do Formicida...

..::Platônico::...

Só pensava, e não escrevia, nem falava, apenas lia
Só queria, nem andava, se sentia não gostava
Só ligava, talvez via, e só deitava, não dormia

Mal comia, ou respirava, mas podia, e não estava
Mal lembrava, e ouvia, como sonhava o que seria
Mal entendia, então tentava, e teria o que plantava
Mal sabia o que a esperava, nem fugia, então amava...

Lua Aaliyah
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