.:Macabéa:.



Houve um tempo em que eu achava que a questão era ter tudo. Era preciso ter tudo e assim não ia mais doer.
Era preciso família, amigos, dinheiro amor... e não ia mais doer.
Era preciso diversão, ostentação, moda, luxo... e não ia mais doer.
Era preciso força, vontade, paciência... e não ia mais doer.
Então me armei com o que pude e fui à batalha. Fiquei próximo da minha família, conquistei amigos, trabalhei por dinheiro e encontrei um amor. Mas ainda doía.
Fui em busca de me divertir, comprei coisas para ostentar, me vesti com o que era tendência, fiz coisas pelas quais não podia pagar. E continuou a doer mais.
Busquei forças de dentro de mim, mantive minha meta, meditei para ter mais paciência. E ainda assim, doía.
Eu achava que era uma questão de ter. Depois uma questão de ser. Mas me olho no espelho e vejo que tenho o que quero, mais do que isso, tenho exatamente aquilo que preciso, vejo que sou em boa parte aquilo que eu um dia quis ser, mais exatamente, sou aquilo que nesses anos todos eu tenho conseguido ser.  

Então, que demônios são esses que ainda me fazem doer por dentro?

.:Efêmero:.



O tempo não para e a gente ainda passa correndo..
As pessoas têm o segredo da felicidade da palma da mão, mas se perdem entre telefonemas não dados, decisões adiadas, informações não buscadas...
São tão poucas as oportunidades que quase nos esquecemos delas, e as deixamos passar no meio de tantas tarefas,  horários a cumprir e satisfações a dar. E no final, onde vamos parar com isso? 
Quer dizer, o que fica além do vazio ao final do dia e a sensação de que esqueceu de alguma coisa, mas não sabe do que?
Acontece que a gente esqueceu mesmo... 
Esqueceu de sorrir um pouco, de mandar um olá, de dar bom dia... 
Esquecemos do mundo que existe dos nossos fones de ouvido para fora, das paredes de nosso trabalho para rua, dos limites da nossa internet para  fora.
E voluntariamente nos afastamos daqueles que amamos. Até que ele vai embora e então é que a gente se dá conta do quanto tempo estivemos fora. 
E esse tempo a gente não mede em segundos, minutos e dias... 
É o tempo da ausência, da falta de notícias, do aparente descaso com a vida além da própria, dos problemas além dos próprios,  o tempo em que não se segurou a mão, olhou no olho, mesmo calado. Tempo da ausência...
Por que a vida, essa filha da mãe, é repleta de ausências, e nós cruelmente, criamos a cada dia mais e mais ausências. 
Me pergunto por que não é tão mais fácil criar contatos e presentes... 
Por que em vez de resolver uma última questão antes de ligar, a gente não dá um tempo e manda mensagem... 
Ou antes de escrever aquele último parágrafo, a gente apenas não respira fundo e sorri, por que não é que o trabalho foi exaustivo. É que enfim acabou.
Mas hoje esse tipo de  coisa ficou relegado a frases de efeito em textos de auto ajuda...
E é tosco dizer tudo isso...
Quero morrer brega...

Right here waiting

Hoje eu me senti sozinho. Pela primeira vez em meses. E eu que achava que nunca mais fosse me sentir assim.
Não que se sentir só seja algo estranho em si...
Eu só tinha desacostumado da sensação de não saber.
Não saber se está tudo bem...
Não saber se eu posso ligar...
Não saber se eu ainda posso contar...
Não saber o que está acontecendo direito...
Eu sei, ninguém é perfeito.
Eu não sou e não quero que ninguém seja
Senti vontade de te ligar. Ou mandar mensagem.
Nem era nada de importante
Era só para saber como você estava
Mas achei melhor esperar...

O dia em que não fiz uma tatuagem como forma de rebeldia

"Feita de música, luar e sentimento..."
Eu sempre quis fazer uma tatuagem. Já tive trocentas ideias, mudava a cada semana, mas um dia li essa frase e me encantei com ela. Estava decidida. Iria fazer no ombro. Pronto.
Mas... Fui deixando para depois, adiando, inventando alguma desculpa, falta de grana, falta de tempo, o desenho que não era legal, o traço, tudo, e não fazia a tal tatuagem. Até que me perguntei porque, e entendi que não havia motivos para não fazer. Só que não havia também motivo algum para fazer.
Por que, qual a ideia básica de alguém que decide fazer uma tatuagem? Ser diferente. mas, pensando bem, em dias como agora, diferente de quem?
Não entendo essa obsessão das pessoas hoje em dia em serem diferentes. E muito menos como essa paranoia toda começou. Incrível o tempo e energia que vejo desperdiçarem querendo ser diferentes, únicas. Mas no fundo, parecem não perceber que estão cada vez mais iguais. Acontece que eu percebi que o que faz alguém diferente não é ela ter um corte ou uma cor de cabelo ousada, uma, duas ou mil tatuagens, piercings, body arts, uma maquiagem chamativa, uma roupa diferente  ou qualquer coisa do tipo. O mundo é - e sempre foi, na verdade - uma soma desses elementos.
O que faz de mim uma pessoa diferente é o que eu sou enquanto pessoa.
"Passo tanto tempo querendo ser quem eu sou e ficam vocês querendo que eu seja como eles..." 
Li em um libro sobre ele e essa frase sempre me acompanhou.
Deixa explicar: é meu jeito de pensar, de agir. (Acho que) o que faz de mim ser diferente é jogar o lixo no cesto e não no chão. É dar bom dia ao entrar no elevador. É perceber que minha colega de trabalho está passando por dificuldades e levar um chocolate pra ela. É pensar por mim mesma e defender minhas opiniões, mas respeitar a daqueles que pensam de outra maneira. 
No fim das contas, é isso que vai ficar no mundo quando eu me for.
"Mas isso é tão clichê!"
Claro que é!!! Tanto quanto ter uma cereja tatuada no ombro ou três estrelinhas na nuca, atrás da orelha. Mas a questão não é ser clichê. É ser rebelde. E, para mim, pintar o cabelo de vermelho, usar determinada roupa ou fazer uma tattoo não é sinônimo de rebeldia. 
"Ah, mas tem toda uma simbologia, uma história, um marco..."
Aí é outro departamento. Se na sua vida aconteceu uma tragédia ou uma alegria muito grande, algo que de tão excepcional e importante te marcou - literalmente - na pele, a tatuagem ganha outra dimensão. Aqui não é mais ser diferente, único ou rebelde. É ter algo para lembrar a si mesmo. E eis mais um motivo que não tenho para desenhar meu corpo. Não tenho nenhum marco assim na vida.
Por outro lado... Vejo cada vez mais vejo asas, pássaros, plumas e símbolos de infinito em pulsos, ombros, nucas e outras partes corporais por aí afora... Será mesmo o quesito "liberdade" algo tão marcante assim? Ou antes, será mesmo que você, tão livre e dono de suas decisões, precisa mesmo de uma tatuagem que mostre pro mundo o tamanho de sua liberdade? Por que, vejo crescer esse enorme exército de mentes "livre-pensantes" que no fundo, me lembram um pouco aquele clipe de Another Brick on the Wall, mas com tatuagens de pássaros fugindo de gaiolas no lugar dos fardamentos. 
Que liberdade é essa que não se realiza se não for exposta e exibida ao mundo? E aqui, talvez, a gente volte ao começo do texto: isso é ser diferente? Mas, diferente de quem?
Então, ao passar na porta do estúdio de tatuagem, olhei para o letreiro, sorri para quem estava lá dentro, respirei fundo, e segui meu caminho. Como uma rebelde - e com causa: a de continuar sendo quem eu sou. 
Quem é? O que é? Tento dizer o que me falta e o que (não) digo falta me faz. Mal as palavras sobem-me à garganta engasgam, saem mortas ou, se (sobre)vivem, perdem-se. Sim! perdem-se de mim e eu me perco delas. Logo "perdem-se" elas novamente em encontros futuros... Não sou dono de minhas próprias palavras! Queria poder dizer, mas não há palavras. É preciso criá-las, é preciso um meio; um meio de dizer sem "palavras". O silêncio me é amigo. o silêncio me é companheiro. Tão importante quanto sentir, tão importante quanto o não dito, tão importante quanto a nota perdida, a nota encontrada, o acorde consonante e dissonante. Sou? Não sou (?). É preciso dizer com o silêncio. Não há palavras, é preciso dizer com literatura. O que sou? Quem sou eu? 
Um enigma!

.: Autor Desconhecido :.

Diálogo de Caio

Sim, eu sei, eu estou fazendo o que gosto. É claro que eu adoro escrever. Adoro ler. Conhecer gente. E estou podendo fazer tudo isso e ainda receber dinheiro em troca. Pouca gente pode abrir a boca e dizer que até gosta de ir pro trabalho, não é mesmo? Eu pensando bem, eu até sinto falta às vezes, quando não estou lá...

 Ah, sim, a faculdade é cansativa, claro... Muita coisa, muita aula, muitos trabalhos!!!... Mas no fim, é bom. A gente sempre pode aprender uma ou outra coisa nova. Não, ainda não conheço muito gente por lá, na verdade não conheço praticamente ninguém, mas sei lá, você sabe que sou meio chata, meio desconfiada, não faço amizade assim tão fácil. E é, tem isso também, sou muito impaciente com as pessoas. Mas tirando isso, lá é legal... E se Deus quiser, logo acaba.

Mas como você pode perguntar uma coisa dessas!? Claro que eu te amo! Sim, claro que sei que você também me ama, e isso é muito bom, você sabe! Nós sabemos! E claro que que fico feliz quando estou contigo. Você me faz sorrir. Isso nunca, presta atenção, nunca esteve em questão... Eu sei que parece que eu tenho tudo... Eu só não sei por que mesmo assim, ando triste...

Há meros devaneios tolos...

Creep by Radiohead on Grooveshark
Não sei o que acontece. Sinto que não consigo me encaixar no mundo...
Não é discurso de gente metida a triste. Ou que se faz de deprimida para mendigar amor...
É simples...
Não me identifico com o mundo...
Não encontro lugar para mim...
Não sinto pathos...
Não tenho a paixão por moda que algumas colegas tem. Não me interesso tanto por gastronomia quanto minha habilidade para cozinhar permitiria. Não leio tantos livros quanto minha formação exigiria e nem ouço tantas músicas quanto meu gostar desdobraria.
Sou uma intensa sem paixões...
Uma do contra à deriva. E sem opções.
Que não consegue conversar sobre a série do momento com o namorado. Ou sobre o casamento da filha da vizinha com a mãe...
Chego a sentir certa inveja das pessoas...
Tão integradas em seus assuntos. Tão animadas em suas convicções...
Todas de conversa. Vários assuntos. Piadas internas.
 Eu não sei fazer nada disso...
Eu só me esforço para parecer comum. Para me integrar...
Geralmente, até que me saio bem.
Muitas vezes, apenas fico calada. E observo...
Eu gosto de observar as pessoas...
Como elas interagem. O que gostam de conversar...
E tento fazer igual. Sair de dentro da minha mente...
Onde sinto que é o meu lugar.

Alguma Poesia

Quando acordo no meio da noite
E o vejo dormindo a meu lado
Por um breve momento
O mundo inteiro faz sentido
Como se o tempo parasse ao movimento
Do peito dele, desnudo, enquanto respira
E eu quase pudesse tocar a alegria que me invade
E acredito que, no sono, ele sabe
Exatamente o tamanho do que sinto
Mesmo que eu não tenha a coragem
Para dizer as palavras certas
O rosto sereno e esquecido
Distante no reino dos sonhos
É a visão da paz que eu queria dar ao meu espírito
Tão fatigado de amar errado
De vagar sem rumo
Quando ele dorme ao meu lado
É como se eu voltasse para casa
Entre transportes públicos e seus passos apressados, ela ia pela cidade. Era um daqueles dias meio de sol, meio de chuva, como uma ânsia que não sabe se fica alegre ou triste.
Acordara sentindo-se estranha. Feia, talvez? "A solidão enfim não me deprime. Acho que as nuvens estão indo embora." As palavras não lhe saíam da cabeça. Gostava de ficar quieta. No seu canto.
Mas as pessoas, sempre em seus grupos, faziam sempre muito barulho. Aqueles que implicam com a ideia do homem ter vindo do macaco nunca devem ter reparado que as pessoas só andam em bandos. E as pessoas que passavam por ela, igualmente em bandos, conseguiam ser mais barulhentas que seus fones de ouvido tocando AC/DC no volume máximo, mais barulhentas que sua mente ruidosa.
Preferiu então buscar um canto mais tranquilo, onde pudesse ouvir o som da própria respiração. "A solidão enfim não me deprime." Olhou para o vazio. Sorriu. E começou a escrever.
"No fundo as pessoas tem medo de estarem consigo mesmas. É tão estranho, parece que fica todo mundo olhando pra gente. Sabe aquela sensação de que só existimos a partir do momento em que interagimos com outras pessoas? Balela, eu sei, você me diz, mas é como se sentissem até certa pena de mim, sentada, sozinha, escrevendo, enquanto por todo lado sempre há tanta gente.
Devem achar que sou uma chata. Ou talvez, uma esnobe. Mas ninguém consegue perceber que eu sou simplesmente tímida. Claro, no mundo em que vivemos é muito mais fácil julgar por aquilo que se vê do que conhecer, afinal, é tudo tão superficial que as pessoas acabam com medo de contatos mais profundos. E tudo o que consigo ver são pessoas extremamente solitárias rodeadas por um mar de gente em relações vazias e superficiais.
Vai ver, é porque para ter algum tipo de relacionamento mais profundo com alguém é preciso, antes de mais nada, saber estar consigo mesmo. E gostar."
Tinha começado a chover. Entre vozes, passos, música e a batida do seu coração, aquele era o melhor som que poderia ouvir.

Alívio

Não escrevo para ser famosa, para ser repetida nem para ser reconhecida. Muito menos escrevo para deixar um legado à humanidade, mudar o mundo ou deixar qualquer espécie de mensagem a quem quer que seja. Não escrevo para dar indiretas. Aliás, faço isso de forma bem direta mesmo, através da fala.
Não pretendo cumprir a meta de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Não tenho tempo para isso. Nem quero trazer alegria e conforto através das minhas palavras. Não sou nem psicóloga. Não busco tampouco despertar inquietudes pelos meus textos. Acho que já tem paixão e medo demais no mundo para fazer isso.
Escrevo porque não caibo dentro do meu corpo. Por que meu universo é mais amplo e profundo do que minha cabeça pode processar. Escrevo porque nunca haverá musicas o suficiente no mundo que falem por mim aquilo que acho que não sei dizer.
Escrevo porque sinto muito, e a tristeza é tão sofrida e a felicidade tão alegre que vivo com o peito prestes a explodir. A intensidade da chuva me comove e oisterio do luar me emociona, e a voz humana é falha, e seu barulho quebra a beleza frágil do silêncio.
No final, escrevo porque não sei fazer outra coisa na minha vida. E nem quero. Escrevo para não sentir dor. Escrevo para continuar a ser eu mesma...
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